A entrada estava lotada, muitas pessoas já estavam esperando há uma hora para o show começar, a fila chegava às calçadas. A ansiedade de quem foi ver Mariene de Castro cantar na Igreja da Barroquinha podia ser sentida pelos olhares e murmúrios das pessoas que estavam esperando, muitos deles vestidos de branco, afinal era sexta-feira (9) e a anfitriã tinha pedido que os convidados se vestissem com a cor para simbolizar a paz e a harmonia. Ao entrar pelo portão, cada pessoa foi recebida da melhor forma, com a receptividade tão típica da Bahia: com flores e presentes, como a fitinha do Senhor do Bonfim.
As escadarias da antiga Igreja da Barroquinha, que agora faz parte do Espaço Cultural Barroquinha, estavam enfeitadas com flores artesanais, imagens de padroeiros, folhas no chão e esteiras de palha ornamentando os altares dos santos, para começar bem o primeiro show de 2010 do projeto Santo de Casa, que trará mais shows em janeiro e fevereiro no local. A iluminação dava um colorido especial ao branco das escadarias e da Igreja.
Com quase tudo pronto faltava apenas um detalhe para a festa começar, a benção dos santos. O momento ecumênico contou com a presença do padre Alfredo Souza Dórea, da yalorixá Jaciara Ribeiro do terreiro Ylê Axé Abassá de Ogum, do mestre Ivan da União Vegetal e de pai Tinho do terreiro Ilê Axé Oxumaré. Todos eles, juntos, benzeram com água de cheiro os presentes na capela da Igreja.
E a festa começa anunciando a chegada dos Reis Magos, com o grupo de Folia de Reis, Eterna Juventude, como no festejo popular que dá as boas vindas ao menino Jesus. Depois que os estandartes de Reis subiram as escadarias para ir embora, guiados pela estrela de Belém, o local já estava lotado. Era hora de a religião dar lugar ao profano. Mas na Bahia, essas duas coisas sempre estão misturadas. “Eu não costumo separar o profano do sagrado, essas coisas estão muito ligadas”, diz Carlos Silvano que foi ver o show por ser fã de Mariene de Castro.
As cores do terno de reis deram lugar ao azul e branco do Cortejo Afro. A banda saiu de dentro da Igreja e seguiu até o palco. Dançarinos e alguns músicos permaneceram no chão com os seus tambores. “Quem disse que santo de casa não faz milagre?”, pergunta Marquinhos Menezes, vocalista do Cortejo Afro. Nos bastidores, Marquinhos já tinha dito que o único “Santo de Casa” que fez um milagre foi a Mariene de Castro. “Ela envolve as pessoas com aquela voz linda e maravilhosa que aguça a consciência e esclarece as pessoas sobre a música e a religião de matriz africana”, ressalta o vocalista.
Depois do Cortejo Afro, Mariene sobe ao palco para receber os convidados Gerônimo e Maria Gadú. E como boa anfitriã, os recebeu bem. “É um prazer tocar no projeto Santo de Casa da Mariene. Ela é uma pessoa que tem muito cuidado com o que faz, e está fazendo um trabalho inédito resgatando esse tipo de comportamento musical que existe na Bahia e que estava adormecido”, conta Gerônimo.
“Quando a casa tem seu santo, quando o santo guarda a casa”, canta Mariene ao iniciar o seu show, ao som de berimbau e fogos de artifício. Vestida toda de branco, com um arranjo de flores na cabeça e ornamentada de dourado, como boa filha de Oxum, Mariene de Castro começa o show saudando todos os deuses e deusas. Roda e samba antes de gritar: “Diga à mãe que eu cheguei, cheguei tô chegada”, pra anunciar que agora, sim, o show tinha começado. O público acompanha em coro, com palmas e euforia.
As músicas de Mariene foram cantadas por todos, como “Ilha de Maré” e “Abre Caminhos”. Ao que se seguiram canções tradicionais como “Falsa Baiana” de Geraldo Pereira e “Vatapá” de Dorival Caymmi. Ela prova que também sabe mexer e que o samba de roda baiano sai de seus pés, não fica parada no palco e anima o público que faz rodas de samba na platéia. Se emociona ao cantar “Tia Nastácia”, canção especial em sua infância, e fala com carinho de Roque Ferreira, compositor e seu parceiro de longa data.
Os convidados foram chamados um por um e cantaram músicas de sucesso com a anfitriã. Cortejo Afro voltou ao palco e misturou a sua percussão ao samba com a música “Preta”. E Gerônimo foi recebido para cantar “É D’Oxum”, música que representa a alegria da cidade de Salvador. A cantora Maria Gadú proporcionou o momento mais romântico da festa. Ela e Mariene de Castro cantaram quatro músicas com muito entrosamento. O público não deixou Maria Gadú ir embora até ela pegar o violão e cantar “Encontro”.
A plateia ainda teve muito pique para terminar o show com mais samba, dançando “Samba da minha terra”. Na saída do show, Mariene de Castro estava cansada, mas muito feliz e contou que a festa não seria a mesma se não fosse na Igreja da Barroquinha. “Eu fiquei encantada, apaixonada com esse lugar que é o mais cultural que Salvador tem hoje pra fazer um evento. O Santo de Casa é um projeto do encontro da cultura popular”, conta Mariene.
A mistura cultural da festa agradou a soteropolitanos e turistas. “Foi o meu primeiro dia em Salvador, estava passeando no Pelourinho e resolvi vir pra cá. Achei demais o show na Igreja, foi maravilhoso. Não podia ser melhor essa mistura, a cultura popular com um show de uma cantora moderna. A Bahia é justamente como eu esperava”, conta Giovani Basei de São Paulo. “Foi uma emoção única ver o Cortejo Afro junto com Mariene de Castro e Gerônimo. Eu achei bem inovador, criativo, bem convidativo”, diz Mariana Marcarenhas, soteropolitana.
Na semana que vem tem mais Mariene de Castro na Igreja da Barroquinha com o projeto Santo de Casa. Com a sua receptividade, Mariene já abriu as portas e todos se sentiram mais do que convidados a voltar.
Veja abaixo algumas fotos do show:
Texto
Paula Janay
Redação Bahia.com.br











