Lavagem do Bonfim mistura culturas e crençasBonfim’s Festival blends cultures and beliefs

8 de janeiro de 2010 as 8:22

Milhares de fiéis caminham até a Colina Sagrada para agradecer ao Senhor do Bonfim. Foto: Adenilson Nunes/Agecom

Água de cheiro, cavaquinhos, rendas, fitinhas e colares de contas brancas. Os potes em cerâmica, com flores e água de colônia vão sobre as cabeças das baianas. As homenagens ao Senhor do Bonfim, padroeiro do coração dos baianos, e a Oxalá, deus da paz, harmonia e do amor, são embaladas ao som das violas, que dão o ritmo da lavagem das escadarias e do adro da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, na Colina Sagrada desde 1754.

Este ano, na quinta-feira (14), 1 milhão de fiéis devem percorrer os oito quilômetros que separam a Conceição da Praia da Igreja do Bonfim, vestidos de branco e entoando o Hino ao Senhor do Bonfim, na segunda maior festa popular da Bahia. Como de costume, o sincretismo religioso se faz presente, e o sagrado e o profano se misturam em homenagem ao santo católico e seu correspondente no Candomblé, Oxalá, na mais importante festa religiosa da Bahia. De acordo com o historiador Manuel Passos, “a beleza da festa do Bonfim está na cor, naquele ‘corredor branco’, formado pelas pessoas que vestem a cor de Oxalá e seguem a pé pelo cortejo”.

Enquanto o sagrado se encarrega das homenagens ao padroeiro do coração dos baianos, paralelamente acontecem shows de artistas da terra, ligados à “Axé Music”, além de apresentações de filarmônicas, de grupos de capoeira, samba e outros ritmos musicais. Este ano, especialmente, uma procissão inédita sairá da Igreja Nossa Senhora da Mãe de Deus, no dia 14 de janeiro, às 17h, com destino à Igreja do Bonfim e dará três voltas ao redor do templo, antes da missa campal, marcada para as 18h. A inovação faz jus aos três nós que os fiéis dão nas fitinhas ao fazerem seus pedidos.

História – Conforme o historiador, a maioria das manifestações populares no estado, tem origem portuguesa, a Lavagem do Bonfim não é diferente. Há registros de que as homenagens tenham iniciado em 1754, quando a imagem do Senhor Crucificado – trazida em 1745 pelo Capitão do Mar e Guerra da Marinha Portuguesa, Teodósio Rodrigues – foi transferida da Igreja da Penha, em Itapagipe, para a sua própria Igreja, na Colina Sagrada.

A lavagem, no entanto, data de mais de um século, iniciada pelos negros africanos e pelas senhoras dos mesários, juntamente com moradores da região, em louvor ao Senhor do Bonfim, à Nossa Senhora da Guia e a São Gonçalo. “A particularidade da festa do Senhor do Bonfim é a sua ligação evidente com o Candomblé, pela figura de Oxalá. Muitos historiadores destacaram na festa a força da música negra, dos atabaques. A Colina Sagrada tornou-se algo emblemático lá fora”, diz Passos.

A mistura de povos, de credos e culturas e o caráter insólito da festa também renderam proibições e conflitos ao longo dos anos. Em 1889, o então arcebispo da Bahia, Dom Luis Antônio dos Santos, vetou a lavagem do interior da Basílica. A intervenção da Guarda Cívica gerou apreensão de vassouras, violas e cavaquinhos e a festa só voltou a ser realizada dez anos depois. Em 1940, novamente a Arquidiocese tentou proibir a lavagem, embora, desta vez, sem sucesso. Desde então, a festa nunca mais deixou de ser realizada.

Serviço:

Local: Saída da Basílica da Conceição da Praia em direção à Colina Sagrada

Data: 14 de janeiro de 2010

Horário: A partir das 9h

Confira fotos da Lavagem do Bonfim em 2009:

Thousands of believers walk to Colina Sagrada to thank Our Lord of Bonfim. Photo: Adenilson Nunes/Agecom

Perfume, little guitars, laces, ribbons and white bead collars. The ceramic vases with flowers and perfume go on top of the baianas’ heads. The tributes to Our Lord of Bonfim, patron saint of Bahia’s people, and to Oxalá, Candomblé’s deity that represents peace, harmony and love, happen under the sound of guitars, which have marked the rhythm of the washing of the church’s stairs and churchyard, at Colina Sagrada (Sacred Hill) since 1754.

On the second Thursday of January after Epiphany – this year it’s the 14th – thousands of believers dress in white and sing the hymn in honor of Our Lord of Bonfim. As usual, the religious syncretism is present and the sacred and profane blend to honor the Catholic saint and his correspondent in Candomblé, Oxalá, in Bahia’s most important religious festival. According to the historian Manuel Passos, “the beauty of Bonfim’s Festival is in the color, in that white corridor formed by the people that dress in Oxalá’s color and follow the cortege on foot.” The cortege leaves from Nossa Senhora da Conceição da Praia Church, in the Lower City, and goes up Bonfim’s Hill, in the famous eight kilometer journey.

While the sacred part of the festival is represented by the tributes to the patron saint, there are some parallel shows of local artists, besides presentations of philharmonics, capoeira groups, samba and other musical rhythm. This year, specially, a new cortege will leave from Nossa Senhora da Mãe de Deus Church, on January 14th, at 5:00pm, heading towards Bonfim Church, where it will go three times around the temple, before the 6:00pm mass. The innovation alludes to three knots that believers make in their Bonfim’s ribbons before making wishes.

The mixture of peoples, beliefs and cultures and the unique character of the festival also led to prohibitions and conflicts over the years. In 1889, the archbishop of Bahia, Dom Luis Antônio dos Santos, forbade believers to wash the interior part of the church. The intervention of the Civic Guard resulted in the apprehension of brooms and guitars and the festival only happened again ten years later. In 1940, the Archdiocese tried again to forbid people to wash the stairs, this time unsuccessfully. Since then the festival has happened every year.

Where: Leaving from Basílica da Conceição da Praia towards Colina Sagrada
When: January 14th, 2010
Time: from 9:00am

See the photos of Bonfim’s Festival in 2009:

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